Divulgação de curso em SP

 

Para os estudiosos de voz, eis um curso imperdível que ocorre este sábado em São Paulo. cursoyazaki

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Respiração Coordenada

No ano passado, eu tive o prazer e oportunidade de trabalhar com algumas pessoas notáveis, entre elas, Karen Saillant. Karen acumula predicados, soprano dramático estadunidense, diretora artística da International Opera Theater, na Filadélfia, libretista, compositora, para citar alguns. Hoje, ela é uma das maiores difusoras do trabalho do Dr. Carl Stough, regente coral e criador da Respiração Coordenada, técnica desenvolvida a partir do quadro de enfisema apresentados por alguns pacientes nos hospitais para veteranos dos EUA. Através de um exercício simples, é possível fortalecer o diafragma e reeducá-lo ao movimento natural necessário para uma respiração otimizada, coisa que os médicos da época não acreditavam ser possível. Segundo o Dr Stough, esta é a base da saúde do corpo e nesta falta de coordenação está a origem de todos os problemas que temos hoje em dia.
Para a prática do exercício, é necessário deitar em um lugar firme, o chão plano forrado com uma toalha ou tapete de Yoga é ideal. Posiciona-se uma almofada sobre os joelhos e outra sob a cabeça. Deixamos o corpo relaxar e iniciamos uma contagem cíclica silenciosa, de 1 a 10, ou de 1 a 5, ou qualquer sequência que seja confortável. Quando sentimos que o ar de nossos pulmões se acabou, relaxamos para que o ar deslize de volta para nossos pulmões, sem puxá-lo para dentro, sem mover os ombros ou elevar o peito, apenas relaxando o abdômen. E então se tem início uma contagem audível, na mesma sequência da contagem anterior. Nesta fase, podemos sentir quando uma nova tensão se forma em nosso abdômen enquanto contamos em voz alta. Precisamos estar atentos – mas não tensos – para passar da contagem audível para a silenciosa novamente antes de que esta tensão reapareça. Talvez, nas primeiras repetições deste exercício, possa parecer incerto este momento, mas não há nada mais eficaz do que a prática para o domínio e compreensão, certo? E sucessivamente se repete este ciclo, contagem silenciosa, inspiração, contagem audível…

Minha observação pessoal é que é realmente impressionante que ao fim da prática seja possível sentir de fato que houve um trabalho direto no diafragma. E os resultados vem daí. E é surpreendente como um exercício tão simples consegue agir tão significativamente sobre uma musculatura de difícil compreensão.

Sobre a técnica e a sua história, Karen escreveu um artigo, o qual traduzi, que disponibilizo o PDF aqui. A versão em inglês com algumas imagens pode ser encontrada neste link.

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Não-conformidade

“Uma pessoa esquiva também não é necessariamente um neurótico. Quase todos os grandes homens têm excentricidades. Eles se encaminham para tão longe em uma direção, que chegam a perder contato com muitas fases de sua época. Não se pode dispensar a Albert Einstein um corte de cabelo à moda de um convocado ao exército, tampouco poderão suas idéias serem carimbadas ‘Emissão Governamental’.
A individualidade e a não-conformidade não são doenças. Quando este país era mais novo, todos eram muito mais tolerantes com as peculiaridades de seus vizinhos. A individualidade na aparência, opinião e modo de expressar era respeitada. Talvez isto seja a razão de termos tido tantos indivíduos proeminentes. Hoje, com a regimentação jorrada sobre nós pelo sistema de educação pública, propaganda, e outras espécies de produção em massa, o tradicional e ímpar culto à personalidade já não é apreciado com agrado. Muito ao contrário, quem assim pensar é chamado de ‘neurótico’.

In Valorize sua personalidade, de David H. Fink, traduzido por Antônio Cid Loureiro Netto, Editora Científica, 1966.

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Antes só do que mal acompanhado.

Estive por um tempo afastada e há pouco voltei a dar aula para um antiga aluna. Conversando, ela me conta que tentou seguir com uma outra professora neste meio tempo, mas que não havia dado muito certo.
– Eu já não estava gostando muito, não me sentia estimulada, até que um dia saí de lá sentindo a garganta inchada, horrível, e então decidi que para mim bastava.
– Fez bem – comentei.
– Fiz? Quem bom, fiquei achando que era alguma dificuldade de relacionamento minha. – Tadinha, justo ela, que é um amor.
Sim, de fato ela fez. A questão de não se sentir estimulada é algo muito pessoal, mas não deve ser ignorada. Como já falei antes, é normal que haja mais afinidade com algumas pessoas do que com outras, e isso se reflete diretamente no produto do nosso trabalho, não se limitando somente à voz. Tudo que fazemos na vida cabe nesta regra. É normal que quando nos aliamos a algumas pessoas consigamos mais progressos do que com outras, é uma questão de afinidade, personalidade de cada um, não necessariamente tem a ver com competência de qualquer um dos envolvidos.
Já o outro ponto não tem nada de subjetivo. Quando procuramos um professor, queremos alguém que nos oriente num processo. Quando queremos cantar, é imprescindível que esta orientação seja extremamente criteriosa, porque, ainda que indiretamente, orientador vocal – seja professor ou fonoaudiólogo – atua dentro do nosso corpo. Quando isto é feito de forma irresponsável, lesões e patologias acontecem. E por melhor que sejam as lojas de instrumento, não podemos comprar cordas vocais novas lá.
Um professor deve nos corrigir, nos orientar, estimular nossa consciência e percepção, sobretudo sobre nós mesmos. Cada um é o senhor de sua própria voz, cada um sabe onde incomoda, sente como se a própria energia rende melhor, como se sente mais confortável, o que derruba e o que faz bem; estas percepções todas não podem jamais serem menosprezadas. Se em algum momento você produziu um som que lhe fez mal ou deixou rouco, isto não pode ser ignorado. É para evitar este tipo de situação que você buscou alguém para te orientar. De fato, um mau professor é pior do que professor nenhum. Quando não temos muita certeza do que estamos fazendo e encontramos uma dificuldade, nós não forçamos os limites; por outro lado, uma pessoa que deveria saber do que fala mas não sabe, cria a falsa impressão de segurança, fazendo com que aceitemos sem resistência os incômodos e eventual rouquidão, como se isso tudo fizesse parte do processo.
Sendo assim, também é importante ponderar com cuidado professores não nos situam, não nos esclarecem o que estamos buscando, fazendo-nos cantar no automático, não nos fazem temos senso crítico ou compreensão alguma sobre o que estamos produzindo. Há uma diferença grande entre ter uma nota na extensão e cantar, e compreender esta diferença é o que define um cantor. Também é função dele chamar nossa atenção para coisas que estejamos deixando passar, nos indicar quando alguma coisa que estejamos fazendo não esteja fazendo bem à nossa voz, e, por quê não?, à nossa vida.
Caso seja comum seu treinamento vocal o deixar rouco ou com algum tipo de cansaço vocal duradouro, e se o seu professor toma isto como normal, é importante que você reveja a sua relação com ele. Buscar orientação médica ou fonoaudiológica elimina de forma objetiva boa parte das dúvidas. É importante salientar que, ao contrário do que alguns acreditaram e praticaram por alguns anos, cantores, fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas podem e devem trabalhar juntos, desta união só nascem bons resultados.

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Aula de canto com as baquetas

Mike Mangini é o baterista mais rápido do mundo. Você pode ter seu outro drumboy favorito, o que é justo, mas rapidez é o lance dele. Ele foi o primeiro a passar da marca de 1 200 batidas por minuto e até hoje não apareceu ninguém para tirá-lo do topo. Além de ter lecionado por muito anos em Berklee, uma das maiores e mais conceituadas escolas de música do mundo, ele gravou com gente muito boa. Só com o Steve Vai, um dos maiores músicos do mundo, que na minha opinião é o maior guitarrista de todos os tempos, foram 4 álbuns; hoje, é ele que detém as baquetas do Dream Theater, banda que sou fã desde adolescente, e está excursionando na turnê do novo album A Dramatic Turn of Events (2011). Eu vi esse show, tive até o prazer de conhecê-lo de perto e cumprimentá-lo, o cara é uma máquina tocando, também é extremamente simpático. É justo que este sujeito, dono de tantos predicados e récordes, seja autor do seu próprio método de estudo e sistema de aprendizado, o Rhythm Knowledge. Enfim, se era fato desconhecido para alguns, sim, além de fã de ópera e cantora lírica, sou uma roqueira incorrigível.
Ainda que não pareça absurdo, você pode se perguntar do porquê de estar lendo sobre ele num blog de voz. Mangini fez uma participação no programa Super Câmera, do canal Discovery, onde ele toca para ser filmado por câmeras de altíssima velocidade. Eu já acho este programa muito legal, com sua participação eu tive um motivo a mais para ver. Mais do que um show de imagens, é uma aula de música. Para quem quiser o som original, com algumas diferenças de edição, encontra aqui.
Logo de cara, ele entrega a chave de tudo que faz, “paixão e um bom método prático“, o que na versão dublada ficou como “muita prática”, sim, pode ser, mas o que ele, de maneira sutil, deixou a entender é que não vale ficar simplesmente praticando se isto não for feito de uma maneira sabia e otimizada.
Quando vemos então suas mãos em câmera lenta fazendo suas mais de 20 batidas por segundo, podemos observar como seus movimentos são livres de excessos, precisos (e não preciosos como disse o locutor em português), fazem apenas aquilo que é essencial, não produzem tensões desnecessárias, e estão em sintonia com o instrumento, o que significa dizer que permitem seu comportamento natural e tiram proveito disso. Obedecendo a simples lei de ação e reação, uma vez que a baqueta desça sobre a pele da bateria, ela volta naturalmente. Um bom baterista pratica bastante para não violar este comportamento e incorporá-lo à sua técnica.
Assim como os bateristas, cantores também atuam no limite do corpo humano, fazem coisas que fogem a regra comum e ao cotidiano. Logicamente, ninguém chega tão longe por acaso. Mangini entrega então uma informação preciosíssima, que os apresentadores do programa jamais esperariam ouvir, “eu tenho que saber quais as partes do meu corpo precisam ser flexionadas para eu não perder o controle”; ele sabe exatamente o que precisa operar no corpo dele para que sustente todo o resto que está fazendo, onde está situado o seu apoio. Sobre isso, um dos apresentadores sabiamente observa que “um monte de gente acaba se machucando porque se apóia em músculos menores para cuidar de tarefas que deveriam ser dos músculos maiores”. Além do mais, é importante notar que por mais que em alguns pontos possa haver tensão, esta tensão é concentrada somente onde é necessário, não irradia para outros músculos, não terminando por travar o que deve estar solto e relaxado.
Outra coisa importantíssima sobre a qual eles falam é dos olhos de instrumentista, que estão sempre na próxima coisa que ele vai bater. Neste ponto ele toca em algo valiosíssimo que é a consciência de para onde se está indo, o que se deve e quer fazer. É através desta intenção clara em sua mente que ele reproduz as suas frases musicais, tendo a compreensão de que por mais que um movimento ou batida seja complexo, está inserido num sistema maior e é sempre esta totalidade que ele enxerga.
No futuro, eu vou abordar mais isolada e profundamente cada ponto levantado. E eu deixo a pergunta, o que você, vendo Mangini tocando e falando sobre sua performance, aprendeu?

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FestRioVocal

Acontece no Rio de Janeiro, de 7 a 9 de setembro, o V Fórum RioAcapella de Música Vocal, evento que oferece oficinas, palestras, e ainda shows e concertos. A programação está disponível no site onde ainda é possível fazer a inscrição. Coisas muito boas vão rolar!

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Esclarecendo dúvidas

Percebo que as pessoas, tanto pelas que me perguntam pessoalmente quanto pelas estatísticas de busca do site, têm bastante dúvidas sobre o que é mais indicado de fazer, nebulização ou lavagem nasal. Então venho aqui tentar desfazer essa dúvida.
A lavagem nasal basicamente é feita para remover impurezas, como poeira e secreção que se forma nas fossas nasais. Se esta limpeza for feita, sinusites, rinite e outras alergias são amenizadas ou até extintas. Isto pode ser feito tanto com soro fisiológico jogado direto nariz adentro, ou através de irrigação nasal, em que usa-se uma quantidade maior de água com sal ou com bicarbonato de sódio, dependendo de cada caso.
A nebulização, que é recomendada de ser feita apenas com soro fisiológico, é ideal para hidratar toda a mucosa das vias aéreas (onde a água da irrigação nasal chega), mas também de todo o trato vocal, chegando à laringe, o que faz da nebulização uma prática altamente indicada para aquelas tosses secas que não passam, causadas por muco muito espesso. Também é auxiliar em processos alérgicos, mas a irrigação é mais direta.
Importante dizer que uma não anula a outra, assim também como fazer a irrigação nasal não impede de carregar soro fisiológico sempre na bolsa para borrifar nas narinas toda vez que sentir necessário. E, vale ressaltar sempre, nada substitui beber bastante água. Outra dúvida que está trazendo muita gente aqui é sobre beber água enquanto canta. Nada de errado nisso, mas não convém beber água demais, porque ela pode pesar no estômago, deve ser sempre aos golinhos. Mas o que mais vale mesmo é beber água antes de qualquer prática, assim iniciamos uma atividade vocal já hidratados, já que a água demora até uma hora depois da ingestão para hidratar os tecidos.
Um dica interessante para crises de tosse é chupar uma balinha qualquer, não precisa ser de mentol nem eucalipto, pode até ser um pirulito, que faz com a salivação aumente, e diminui a crise.

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Iniciando a Respiração

Falar de respiração é complexo, mas a razão disso é simples, quer ver? Vamos lá, respire normalmente agora. Viu só? Você estava respirando normalmente até ler isso, e agora começa a criar algumas interferências, ainda que mínimas, pelo simples fato de precisar fazer isso conscientemente.
Você não se lembra, mas quando você nasceu, você tinha aquela postura impecável natural dos bebês e respirava com maestria, e esta relação não é mera coincidência. Mas então mandam a gente para a escola, para passar horas a fio curvados sobre a mesa tentando desenhar letrinhas e números, o que termina curvando nossos ombros para a frente, pressionando o diafragma e reduzindo em muito o seu espaço de ação, o que, consequentemente, fez com que o corpo buscasse outros espaços para respirar, e assim terminamos elevando os nossos ombros e movendo a caixa torácica para o alto do corpo, numa tentativa de achar espaço para os pulmões se inflarem.
Ainda assim, acredite, seu corpo sabe respirar. Se não soubesse, você não estaria lendo isso agora, não teria acordado essa manhã, nem ido dormir ontem à noite; bom, acho que já pegou a idéia. Sem dúvida que o corpo pode fazer isso de uma forma melhor, mais otimizada e mais próxima daquilo que fazíamos quando começamos no ramo da respiração. Mas ao contrário do que parece, isto deve ser feito de forma simples, básica, buscando se apoiar na inteligência corporal ao invés de tentar enxertar muitas novas informações para o corpo. Se você tiver à sua disposição, veja um bebê dormindo, observe seu abdomen  se enchendo e se esvasiando, sem que seu peito se mova. Quando ele precisa chorar, é este movimento que ele vai repetir, com um pouco mais de vigor, e mantendo o resto do corpo relaxado, o que aliás é muito próximo do mecanismo de um cachorro latindo ou de um gato miando.(1)
Este assunto é amplo, extenso, e um tanto quanto polêmico. Aquilo que eu disse desde o começo sobre voz, que o que serve para um não necessariamente serve para outro, vale aqui igualmente. É normal que se encontrem diferentes caminhos que tenham um objetivo em comum. Por tanto muito ainda será postado aqui sobre isso.
Para dar o pontapé inicial no trabalho de respiração, o melhor que temos a fazer, mais do que exercícios e práticas, é tomar consciência de nossos padrões. E isto requer observação. O espelho é um grande aliado, parar diante do próprio reflexo por algum tempo e observar os diferentes padrões que temos é uma boa pedida, de preferência podendo ter uma visão do corpo inteiro, devemos nos assistir por alguns minutos. Muito pouco tempo talvez não conceda ao corpo a oportunidade de chegar ao seu habitual, e também não nos dá a oportunidade de observarmos como vamos administrando as tensões geradas por nos mantermos na mesma posição. Vale fazer isso tanto em pé quanto sentado. Outra, com o auxílio de um colchonete ou até mesmo uma toalha para cobrir o chão e um livro para apoiarmos a cabeça, deitamos no chão na posição semi-supina e deixamos que nosso corpo se assente no apoio do solo, buscando desfazer as tensões que o cotidiano nos dá. Esta prática nos permite perceber as tensões do corpo que são mais difíceis de desfazer, bem como buscar uma posição mais correta, centrada na espinha dorsal. O mínimo de quinze minutos é recomendável, e não se deve fazer isso concentrado em tentar olhar a TV, por exemplo, que muda a posição do corpo, entorta o pescoço, gerando tensões, e diminui a nossa concentração e percepção.
Parece fácil, mas fazendo vamos perceber que relaxamento não é tão imediato quanto gostaríamos que fosse. Outro ponto interessante é vermos como é difícil encorporar essas práticas simples e breves ao nosso dia-a-dia e, conforme conseguimos fazê-lo, há uma diferença significativa no nosso corpo e até mesmo no nossa cabeça.
Sejam bem-vindos a esta jornada.

(1) Eu procurei alguns vídeos no youtube que pudessem ilustrar todas essas criaturinhas lindas e fofas em plena função, mas não achei nenhum bom exemplo. Eu poderia até tentar filmar meu cachorro, mas ironicamente ele é um basenji, uma raça que não late. Se alguém tiver algo que se encaixe aqui e quiser contribuir, será uma ajuda bem-vinda.)

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A arte do Belcanto

Documentário sobre a vida de uma das maiores sopranos do mundo, Edita Gruberova, com cenas de alguns de seus ensaios e momentos de estudo. Extremamente inspirador. Legendas em inglês, audio em alemão.

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Papo de mulher

Muitas mulheres já devem ter sentido dificuldades com a voz causadas pelo ciclo menstrual, mas não necessariamente já tenham conversado sobre os efeitos ou mesmo se dado conta deles. Falemos então aqui abertamente.
Não menstruamos iguais, algumas mais, outras menos. Se investigar com suas amigas, irmãs e colegas, vai ficar claro que cada uma passa pelo mês de maneira diferente, algumas provam de uma TPM galopante, enquanto outras se contorcem de cólica nos dias que se seguem. Com a voz, pra variar, não é nada diferente.
Entendamos o que se passa. Neste período, existe aquele inchaço que todas conhecemos, causado pela retenção de líquido do corpo. Para melhorar isso há vários macetinhos, como evitar álcool, café, sal e até glúten, chás diuréticos e sem cafeína podem ser aliados. Se este inchaço está no corpo, vocês já sabem onde ele chega. Para nos situarmos melhor ainda, quando temos uma inflamação na garganta e ficamos sem voz, também ocorre inchaço das pregas vocais, só que num grau muito maior. Contemos ainda com aquela falta de disposição que é conhecida. Então no saldo final, é comum sentirmos dificuldades, tanto com o corpo, por falta de fôlego, quanto com a própria voz, que pode estar com menos agilidade ou até falta de sons e harmônicos mais leves, porque precisamos empregar um pouco mais de energia pra que haja resposta. É comum, trabalhando com as minhas alunas, a certa altura perguntar “tá menstruada?” e ouvir um “como você sabe?” surpreso. Acompanhando o caminhar de uma voz, certos sinais ficam claros e recorrentes, é palpável até pra quem está de fora a diferença.
Há fonoaudiólogos que recomendam um certo jejum, ao menos nos primeiros dias do ciclo. Isto pode ser um pouco radical, sobretudo para profissionais de voz; às vezes não podemos abrir mão de 3 dias de prática – prática, hein, gente, não estou dizendo repouso vocal absoluto. O que importa é, primeiro, dar um certo desconto, não espere que a voz se comporte da mesma maneira do que o habitual; segundo, vale evitar práticas arranca-coro, exercícios que em dias normais já exigem muito dificilmente atingirão o resultado esperado e só cansarão mais, quem sabe nessa aconteça alguma lesão. Nesses dias, eu costumo trabalhar com o objetivo exclusivo de manter a voz ativa, sem fazer muito esforço, o que, ao contrário do que possa parecer, pode ser muito proveitoso. Quando o corpo não está na totalidade de sua capacidade, buscamos concentrar melhor nossa energia, apoiando-nos mais na técnica e menos no vigor, o que termina nos mostrando outras possibilidades da voz, deixando claro o que realmente funciona por meios técnicos e o que acontece na base do empurrão.

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